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Questões de português - IME

Questão 1
2020Português

[2ª Fase]  A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019.   O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.   Texto 2 XIII   1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo                                                                                                                   Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…   5 E conversamos toda a noite, enquanto A Via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.   10 Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?"   E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: . Acesso em: 19/08/2019.  Quanto aos textos apresentados, assinale a afirmativa que apresenta uma incorreção.

Questão 1
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano.   CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006.   Texto 2 O ELEFANTE 1 Fabrico um elefante   de meus poucos recursos.   Um tanto de madeira   tirado a velhos móveis 5 talvez lhe dê apoio.   E o encho de algodão,   de paina, de doçura.   A cola vai fixar   suas orelhas pensas. 10 A tromba se enovela,   é a parte mais feliz   de sua arquitetura.       Mas há também as presas,   dessa matéria pura 15 que não sei figurar.   Tão alva essa riqueza   a espojar-se nos circos   sem perda ou corrupção.   E há por fim os olhos, 20 onde se deposita   a parte do elefante   mais fluida e permanente,   alheia a toda fraude.       Eis o meu pobre elefante 25 pronto para sair   à procura de amigos   num mundo enfastiado   que já não crê em bichos   e duvida das coisas. 30 Ei-lo, massa imponente   e frágil, que se abana   e move lentamente   a pele costurada   onde há flores de pano 35 e nuvens, alusões   a um mundo mais poético   onde o amor reagrupa   as formas naturais.       Vai o meu elefante 40 pela rua povoada,   mas não o querem ver   nem mesmo para rir   da cauda que ameaça   deixá-lo ir sozinho.     45 É todo graça, embora   as pernas não ajudem   e seu ventre balofo   se arrisque a desabar   ao mais leve empurrão. 50 Mostra com elegância   sua mínima vida,   e não há cidade   alma que se disponha   a recolher em si 55 desse corpo sensível   a fugitiva imagem,   o passo desastrado   mas faminto e tocante.   Mas faminto de seres 60 e situações patéticas,   de encontros ao luar   no mais profundo oceano,   sob a raiz das árvores   ou no seio das conchas, 65 de luzes que não cegam   e brilham através   dos troncos mais espessos.   Esse passo que vai   sem esmagar as plantas 70 no campo de batalha,   à procura de sítios,   segredos, episódios   não contados em livro,   de que apenas o vento, 75 as folhas, a formiga   reconhecem o talhe,   mas que os homens ignoram,   pois só ousam mostrar-se   sob a paz das cortinas 80 à pálpebra cerrada.       E já tarde da noite   volta meu elefante,   mas volta fatigado,   as patas vacilantes 85 se desmancham no pó.   Ele não encontrou   o de que carecia,   o de que carecemos,   eu e meu elefante, 90 em que amo disfarçar-me.   Exausto de pesquisa,   caiu-lhe o vasto engenho   como simples papel.   A cola se dissolve 95 e todo o seu conteúdo   de perdão, de carícia,   de pluma, de algodão,   jorra sobre o tapete,   qual mito desmontado. 100 Amanhã recomeço.   ANDRADE, Carlos Drummond de. O Elefante. 9ª ed. - São Paulo: Editora Record, 1983. Sabe-se que o prefixo de negação “in”, na língua portuguesa, pode assumir diferentes formas, de acordo com a ocorrência dos fenômenos de assimilação e mesmo de dissimilação. Assinale a opção em que o significado do prefixo “in” difere do sentido encontrado nas palavras “indefeso” e “indefinido” no verso abaixo transcrito: “Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.” (texto 1, verso 28)

Questão 2
2020Português

[2ª Fase]  A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019.   O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.   Texto 2 XIII   1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo                                                                                                                   Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…   5 E conversamos toda a noite, enquanto A Via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.   10 Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?"   E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: . Acesso em: 19/08/2019.      Sobre os Textos 1 e 2, analise as afirmações abaixo:   I. Os dois textos abordam tipos de estados alterados de consciência que se contrapõem à experiência da vida cotidiana. II. Ambos os textos fazem uma apologia à loucura, segundo a qual a condição de insanidade pode revelar as mazelas morais da sociedade e da cultura. III. Ambos estabelecem a apologia da razão compreendida como a faculdade superior do homem. IV. Os dois textos realizam uma crítica ao cientificismo que considera a possibilidade de estabelecer uma linha de fronteira entre a sanidade e a loucura.   Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):

Questão 2
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano. CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006.   Os becos descritos no texto 1 denunciam lugares marginalizados, abandonados e, mais frequentemente, não amados. Assinale a opção em que o verso transcrito condiz com essa afirmativa.

Questão 3
2020Português

[2ª Fase]  A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019.   O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.     Texto 2 XIII   1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo                                                                                                                   Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…   5 E conversamos toda a noite, enquanto A Via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.   10 Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?"   E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: . Acesso em: 19/08/2019.    Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, bacamarte é uma “antiga arma de fogo de cano largo e capa campânula” (HOUAUISS, A. VILLAR, M. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 1.ed. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2009). A escolha do nome da personagem central da trama do conto O Alienista antecipa:

Questão 3
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano. CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006. “Amo e canto com ternura / todo o errado da minha terra” (texto 1, versos 29 e 30). A substantivação do adjetivo “errado”, antecedido pelo determinante “o”, que aparece no trecho acima destacado do poema de Cora Coralina

Questão 4
2020Português

[2ª Fase]  A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019.   O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.   Texto 2 XIII   1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo                                                                                                                   Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…   5 E conversamos toda a noite, enquanto A Via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.   10 Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?"   E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: . Acesso em: 19/08/2019.  “– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.” (Texto 1, linhas 24 a 28) À luz da gramática normativa, considere as seguintes afirmações: I. O travessão utilizado em “– Trata-se de coisa mais alta [...]” especifica a mudança de interlocutor no diálogo. II. As vírgulas empregadas em “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora [...]” podem ser substituídas por travessões, sem prejuízo para a correção. III. No trecho “[...] nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante.”, as vírgulas são empregadas com a finalidade de isolar o termo de valor explicativo. Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):

Questão 4
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano. CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006.   “E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.“ (texto 1, verso 23) O modo em que se encontra o verbo ser na forma verbal acima destacada, em contraste com o modo de todas as outras formas verbais do poema, evoca

Questão 5
2020Português

[2ª Fase]  A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019.                                O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.     Texto 2 XIII   1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo                                                                                                                   Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto…   5 E conversamos toda a noite, enquanto A Via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.   10 Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?"   E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: . Acesso em: 19/08/2019.    Com a finalidade de preservar a coerência e a correção gramatical do texto, constata-se, no trecho abaixo, o uso de um elemento coesivo cuja função é anafórica. “Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável.” (Texto 1, linhas 12 a 15) Podemos afirmar que o vocábulo “te” em negrito faz referência ao(à)

Questão 5
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano. CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006. O texto 1 se inicia em um processo descritivo e passa para o descritivo-narrativo. Isso se confirma pelo(a)

Questão 6
2020Português

[2ª Fase] A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019. No Texto 1, o alienista Simão Bacamarte é descrito como um estudioso que disfarça, sob a aparência de humildade diante dos desafios do saber científico, a convicção da superioridade do cientista em relação às outras pessoas. Assinale o trecho que condiz com essa afirmativa.

Questão 6
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano. CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006.   Dentre os pares de versos do texto 1 abaixo transcritos, assinale a alternativa em que há nítida descrição de uma transformação ocorrida durante a passagem do tempo.

Questão 7
2020Português

[2ª Fase] A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 Capítulo IV UMA TEORIA NOVA 1     Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 5  Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.                                                        – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 10         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 20   Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. – Estou muito contente, disse ele. – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25  porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 30           Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:        – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério 40   – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.                Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; – ou por meio de matraca.                 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50             De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à  55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século.                  – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.                   E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução. 65             – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.                  Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:                  – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia.                  O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.                 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. 80            A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma revolução.                                                                     ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: . Acesso em: 12/08/2019.   O vocábulo comiseração (Texto 1, linha 78) se aproxima semanticamente de:

Questão 7
2019PortuguêsÚnico

(IME 2019 - 2ª fase) Texto 1 BECOS DE GOIÁS 1 Beco da minha terra...   Amo tua paisagem triste, ausente e suja.   Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.   Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,   e semeia polmes dourados no teu lixo pobre,   calçando de ouro a sandália velha,   jogada no teu monturo.       Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos   sem pressa,   e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.   Amo a avenca delicada que renasce   na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole   que se defende, viceja e floresce   no agasalho de tua sombra úmida e calada.       Amo esses burros-de-lenha   que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados.   Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra,   no range-range das cangalhas.       E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.   Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,   pequeno para ser homem,   forte para ser criança.   Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.       Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra.   Becos da minha terra,   discriminados e humildes,   lembrando passadas eras...       Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo.   Beco do Antônio Gomes.   Beco das Taquaras.   Beco do Seminário.   Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino.   Beco da Cachoeira Grande.   Beco da Calabrote.   Beco do Mingu.   Beco da Vila Rica...     45 Conto a estória dos becos,   dos becos da minha terra,   suspeitos... mal afamados   onde família de conceito não passava.   “Lugar de gentinha” - diziam, virando a cara.     50 De gente do pote d’água.   De gente de pé no chão.   Becos de mulher perdida.   Becos de mulheres da vida.   Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco.   Quarto de porta e janela.   Prostituta anemiada,   solitária, hética, engalicada,   tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco.       Becos mal assombrados.   Becos de assombração...   Altas horas, mortas horas...   Capitão-mor - alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas.   Capitão-mor, alma penada,   num cavalo ferrado,   chispando fogo,   descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado - feixe de varas...   Arrastando espada, tinindo esporas...   Mulher-dama. Mulheres da vida,   perdidas,   começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco.   Queriam alegria. Faziam bailaricos.    Baile Sifilítico - era ele assim chamado.   O delegado-chefe de Polícia - brabeza -   dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.   No dia seguinte, coitadas,   cabeça raspada a navalha,   obrigadas a capinar o Largo do Chafariz,   na frente da Cadeia.     85 Becos da minha terra...   Becos de assombração.   Românticos, pecaminosos...   Têm poesia e têm drama.   O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada.   Meretriz venérea,   desprezada, mesentérica, exangue.   Cabeça raspada a navalha,   castigada a palmatória, 95 capinando o largo,   chorando. Golfando sangue.       (ÚLTIMO ATO)       Um irmão vicentino comparece.   Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente.   Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel.       Cai o pano. CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21a ed. - São Paulo: Global Editora, 2006. O valor semântico do vocábulo “errado”, exaltado pela autora no texto 1 em “Amo e canto com ternura todo o errado da minha terra.” (versos 29 e 30) não se aplica a